É atribuída a Einstein a seguinte
frase: “a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério”.
O mistério é algo raro na vida
quotidiana, e tal escassez parece resultar, única e simplesmente, do facto de quase
ninguém o procurar. Mas, o mistério procura-se? Talvez não. Talvez o mistério
se crie. E, precisamente por implicar um ato criador e um processo produtivo
(muitas vezes feito de compassos de espera) é que as atuais gerações dão
indícios de uma impotência a este nível, a qual não conseguem resolver ministrando
simplesmente uma das famosas pílulas azuis.
Paradoxalmente, o fenómeno
produtivo parece ser algo que se nos impõe a todo o custo na atualidade.
Vivemos hoje numa sociedade que é feita de solicitações a curto prazo, de
convites, de eventos, que nos impelem a uma produção e afirmação sociais
constantes. O multitasking dos nossos
dias leva-nos – ainda que inconscientemente – a penhorar uma parte do nosso tempo
que bem poderíamos dedicar à introspeção, contemplação e descoberta do nosso
eu, na relação com nós mesmos e com os outros. Tal exigência da sociedade (ou
nossa?) quase que obriga o comum dos mortais a acelerar o processo digestivo de
cada um dos objetos propostos – como, aliás, nos aponta Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço.
A pergunta que inevitavelmente se
coloca é a seguinte: vivemos cansados de nos saciar ou saboreamo-nos?
Estranhamente, o facto de
vivermos numa cultura em que cada vez mais se ouve a máxima “menos é mais” em
nada parece conseguir aumentar o tempo de degustação no que respeita à forma como
nos relacionamos com o outro – o que se sente, particularmente, no âmbito dos
relacionamentos amorosos (ou pseudo-amorosos). A este nível, a dualidade
cromática é gritante: ou aspiramos e vivemos numa caderneta “branca” – em que
colecionamos cromos que nos levem ao altar –, ou caímos numa sebenta “preta” em
que desatamos a rabiscar, sem pararmos sequer para pensar se o caderno é
pautado, quadriculado ou simplesmente liso. Onde ficou a ânsia de aguardar a vinda
do novo material escolar, o tempo despendido em comprar a película
transparente, a paciência ao encadernar cada um dos livros, o gozo de sentir o
cheiro novo a papel…? Não existirão muito mais cores para além destas? Não me
refiro, naturalmente, às “50 Sombras de Grey”*,
cujo argumento – por se basear num contrato escrito e assinado por ambas as
partes interessadas – afasta, à partida, toda e qualquer noção de mistério, e é
um bom barómetro de como a “pressão” anda baixa por estas terras. Na verdade, qual
o prazer de saber os moldes em que, previsivelmente, vamos ter prazer…?
Porque temos medo de pensar, mas
sobretudo de viver e de sentir “fora da caixa”? Por preguiça? Por falta de
tempo? Ou antes, por receio de não sabermos quem e como conduzirá a situação e
o seu desenrolar? Mas não é precisamente o desconhecido que sempre cativou o
ser humano a ir mais além? O espartilho de uma cartilha sexual revela-se, na
minha opinião, extremamente desestimulante, assim como é ler as fantasias
sexuais dos outros em artigos criados em blogs
da “especialidade”. De que nos adiantam as “caixas” dos outros se não vivemos
no corpo e na alma de quem as habita?
Há quem diga que um
relacionamento é sempre um jogo de forças e de poder. Se o é, que o seja, ou
inconsciente – com todo o respeito à microfísica de Foucault – ou
conscientemente, mas de uma forma assumida. Infelizmente parece que, hoje em
dia, o jogo da conquista e a arte da sedução recíprocos têm poucos adeptos e o
trivial é prosseguir diretamente para a “prisão sem passar pela casa-partida”.
Pessoalmente, nunca percebi qual o encanto de começar a refeição pela
sobremesa…
Num país em que a gastronomia, os vinhos e a sua degustação estão em
alta, não deixa de ser triste constatar que os amantes-gourmet parecem estar em baixa. Ao nível da intimidade, a
fila do McDrive é gigante se comparada com os restaurantes de tapas e de comida
caseira.
Giacomo Girolamo Casanova reduziu
a escrito os “Prazeres da boa mesa” (entre outros). Nós temos o “Guia da Boa
Cama e da Boa mesa”, o qual é da autoria de um semanário chamado “Expresso” (o
que não deixa de ser algo “assustador”…).
A arte de Casanova – como nos
chega através dos variados filmes realizados em cima desta lendária
personalidade – parece saída de um velho livro de receitas há muito por abrir.
Cheirar, sentir, saborear e bem falar são ações que parecem ter sido
substituídas pelas de comer, deglutir e “mal” falar. A cultura do mistério e do
suspense foi assim substituída pela
do óbvio e do previsível. A inimitável e intransmissível arte de amar, que
caberia a cada um descobrir e redescobrir no contacto com o outro, afigura-se
assim em vias de extinção.
Num país em crise, em que os
nichos de mercado são cada vez mais explorados e proliferam os personal trainers, coachers e advisers, creio
que a pior coisa que nos poderia acontecer seria algum iluminado começar por aí
a dar lições de “sexo-gourmet”…
Esta é uma crónica assinada por Isabel Melo (fevereiro de 2015) uma autora Chiado Editora
*“50 Tons de Cinza” (título no Brasil)
